| ...nada... |
há coisas que não vale a pena combater. há tendências que nunca podem ser mudadas. há elementos que parecem estáveis, imóveis, independentemente da configuração das estrelas, do sentido do vento, do sabor das palavras, da luz a bater nas janelas. tentar enfrentá-las era uma perda de tempo, de energia, de recursos. um mau cálculo. uma aberração. um erro. uma loucura. não serve ficar zangado. nem falsamente desprevenido. nem chateado. nem horrorizado. nem outra coisa. não serve fugir. ou fingir que não se nota. nem fechar os olhos com abnegação, a esperar que desapareçam. às vezes, a indiferença é uma reação forçada, quando já não se sabe o que se pode ou deve fazer.
a única solução viável é aprender a geri-las. a não se queixar. a ziguezaguear entre elas. a não prestar atenção. a domesticar a sensação que dão. a habituar-se. a ver nelas pormenores que não têm influência nenhuma. em nada. e sobretudo não em nós. parasitas do quotidiano. sombras da realidade. fantasmas da natureza. não é perder. não é abandonar. não é admitir que não seja importante. não é renunciar. não é mergulhar na passividade. é abrir as asas na impertinência da vida. na limitação do dia-a-dia. na constrição das possibilidades. é respirar fundo. é não responder quando fingem que nos estão a chamar. é sorrir. é sussurrar paciência. é vencer.
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