quinta-feira, 25 de maio de 2017

ego

um infinito avassalador
lembram-se da primeira vez na infância em que se deram conta de quem eram? em que tomaram consciência do próprio ego, uma sensação tão forte que até tinham vertigens? em que perceberam que havia um mundo externo que girava, mudava, não fazia sentido, mas no centro de tudo isso havia esse pequeno núcleo estável - vocês - a hesitar quanto se deveria deixar influenciar e impactar? em que olharam para o infinito do céu e se sentiram tão pequenos e insignificantes? em que perceberam que não iam viver para sempre?

é onde o caminho começou realmente. agora se fecharem os olhos é possível refazer esta viagem no tempo e espaço para se relembrar as etapas importantes. tenho três anos e estou a observar o leszek a desenrolar o tapete verde na sala da casa nova. durmo com uma faca debaixo da almofada, gosto de pensar que sou o simon templar. estou sozinha de férias em frança, os pais esqueceram-se de me dar uma toalha, não sei como se diz em francês, choro. todas as terças vou a uma livraria para saber se já têm as obras completas de shakespeare em inglês (das quais não vou perceber quase nada mas não importa). procuro casas no estrangeiro com 19 e 31 anos. nas segundas almoço na casa da avó e sou eu a escolher a ementa. no dia do exame final do mestrado como acho o fato com saia que estou a usar extremamente aborrecido, uso um espartilho com uma meia de ligas por baixo. não é engraçado voltar para trás no filme da sua vida? colher todos estes pedacinhos que nos fazem e nos desfazem?

são etapas. fases. períodos. todos cheios de sonhos, expetativas, deceções. uma construção da identidade. no final das contas, a vida acaba por ser completamente diferente de tudo o que pensávamos. ou imaginávamos. e numa certa maneira imprevisível. descobrimos que as coisas ideais não existem. que as pessoas ideais não existem. procuramos. acumulamos experiências, amigos, resoluções. numa certa altura os êxitos já não se medem com a intensidade da felicidade.  a vida torna-se muito mais prosaica. medem-se com o esforço, o tempo e a energia de que precisamos para lidar com desapontamentos. no fundo, trata-se mais de quantas vezes nos conseguimos levantar do que quantas vezes caímos.

mas o que importa nesse caos é continuar a fazer tudo com dignidade. com integridade. conformemente aos valores que escolhemos. que achamos importantes. eu não sei abdicar deles. nunca soube. ou se calhar não quero. nunca quis. o mais importante tem sido sempre olhar nos meus olhos no espelho e ver exatamente a mesma coisa que lá estava quando era adolescente. tomo um cuidado enorme e faço um trabalho imenso para o preservar. acho mais prudente não conceder nada, que uma vez que se começa é relativamente fácil perder o controlo. quando me devo conformar, tenho sempre a impressão que me estou a corromper.  que me dececiono a mim própria. por isto não me conformo. paciência.

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