terça-feira, 28 de novembro de 2017

o que me incomoda

não sou o meu corpo, não sou o meu nome, não sou esta idade. não sou o que tenho, não sou estas palavras. josé luís peixoto

parece mais prudente nunca acreditar
 nas aparências...
poucas coisas irritam-me tanto como quando alguém pensa ter percebido tudo de mim, em dez minutos. que me pretende conhecer melhor do que eu me conheço. quando, na realidade, não me conhece de todo. quando, em tão pouco tempo, se torna especialista da minha pessoa e me explica de que gosto mais. como devo fazer a minha vida. quais planos ter. o que evitar. que erros não cometer. tudo em mim se revolta contra essa estupidez. contra essa arrogância. contra essa miopia. deixa-me com uma raiva enorme. é um dos melhores modos para se desfazer de mim. e para sempre. não aguento comportamentos assim.

e o que lhes dá toda essa autoridade? uma imagem furtiva que projeto? aparências nas quais acreditaram? palavras às quais associaram sentidos figurados? ares que leram à letra? conclusões às quais chegaram sem se questionarem a si próprios? sentiram-se tão ameaçados que a única solução foi diminuir-me a algo que conseguiriam dominar e gerir? para se sentirem contentes da vida de merda que têm? detesto ser limitada por padrões. rotulada em função dos complexos e das inseguranças da pessoa que me avalia. fechada em gavetas. reduzida a preconceitos. julgada pelo que parece óbvio, mas não é. apagada traço por traço para caber num molde. no molde. 

deixa-me sempre com a vontade de lhes explodir na cara. para verem até que ponto erraram. mas não o faço. dá-me completamente igual. podem pensar o que lhes apetecer. não me tenciono justificar. acho alucinante que nunca lhes venha à ideia que seja intencional. que a enganar as pessoas me dá sempre a opção de as surpreender. de as apanhar desprevenidas. de as descobrir sem que saibam quem sou. de reparar nos seus pontos fracos. de testar a sua mesquinhez e a sua pobreza intelectual. de ver quanto se acham valer. quanto estão dispostos a se prostituírem. é um processo enriquecedor...

sei muito bem o que pareço. vinte e cinco anos. sexualmente acessível. livre de princípios. calma. ingénua. a precisar ser aconselhada. dificilmente podia-se ter uma imagem mais errada de mim. mas sou eu que escolho com quem me apetece jogar com as cartas abertas. e com quem não.

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