a cultura ocidental está obcecada com a maneira como o amor entra na nossa vida. livros, poemas, músicas, letras, filmes detalham a magia. o milagre. o mistério. o destino. a primeira vista com que tudo se torna claro. as palpitações. o nó na garganta. a veneração. a espera infinita por uma mensagem ou por um telefonema. a euforia quando o recebemos. as insónias. a preocupação antes do encontro. a emoção quando acontece. a sensação de vazio quando estamos sozinhos. o cinzento da vida sem a outra pessoa. uma existência reduzida. privada de tudo o que mais importa. as declarações. as exaltações. todas as coisas que aceitamos fazer em nome do amor. o único. o verdadeiro. o puro. tudo o que escolhemos não ver. ou não dizer. os sempres. os nuncas. todas as coisas parecem gravitar em volta dos quandos e dos comos do amor que aparece.
mas ficamos calados sobre a altura, igualmente fascinante e inexplicável, em que o amor desaparece. apaga-se. desvanece. dissipa-se. desmaterializa. deixa de existir. quando a pessoa que alimentava as nossas insónias torna-se completamente indiferente para nós. quando a começamos a evitar. quando nos irrita com absolutamente tudo. quando nos perguntamos se a paixão foi só uma ilusão. ou como podíamos ter-nos apaixonado em primeiro lugar.
sempre fiquei curiosa como se podia adorar alguém, só para não o aguentar uns meses ou uns anos mais tarde. é algo que me fascina. essa decomposição tão radical. esse fim tão devastador. eu sei que o desgaste da relação nunca se faz com a mesma velocidade de ambos os lados. que as pessoas crescem e evolvem de maneira e ritmo diferentes. que temos a tendência para tomar o outro por garantido e achar que não é preciso fazer esforço nenhum quando é exatamente preciso fazê-lo.
lembro-me uma vez ter ouvido uma conhecida dizer que ela já não precisava fazer tanto quanto as raparigas solteiras porque estava casada (ironicamente a conhecida em questão está no meio dum divorcio horrível há uns dois ou três anos). dificilmente podia estar mais errado. atrair a atenção dum homem que se conheceu há uma semana, nada mais fácil. a dum com quem se esteve numa relação durante os últimos dez anos já é muito mais complexo e desafiante.
porque não só é preciso recomeçar todos os esforços diariamente, quase do zero. é também preciso pôr a relação primeiro. o que não significa esquecer-se das nossas necessidades e preferências. significa estabelecer um tal nível de confiança e de vulnerabilidade que sempre se está à vontade para se ser si próprio. e poder compartilhar mesmo o do que não estamos orgulhoso ou do que não gostamos a saber que a outra pessoa vai ouvir e fazer do seu melhor para perceber. tudo isso para o que construímos venha antes dos nossos interesses.
de hoje em dia tudo isso parece trabalho a mais. a tendência é abandonar. deixar quando as coisas se tornam demasiado feias. ou complexas. porque no final das contas é mais fácil recomeçar do zero. a nossa cultura é a do consumo excessivo. e da substituição rápida das coisas que não preenchem as nossas expetativas. e construir relações e confianças requer tempo. paciência. dedicação. curiosidade. generosidade. investimentos emocionais sem uma perspetiva de retornos certos. e quando não há todas essas coisas, não há amor suficientemente grande para que não possa ser morto. mesmo o romeu e a julieta sucumbiam.
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