segunda-feira, 4 de maio de 2015

natureza

tenho sempre querido ser uma daquelas pessoas sossegadas, calmas, que aceitam a vida com serenidade, que relativizam tudo, que conseguem esperar tranquilamente no meio duma tempestade para ver o que o dia seguinte vai trazer. que não se zangam, que dominam emoções, adoptam atitudes filosóficas, ficam neutrais, ponderam vantagens e desvantagens, refletem antes de agir. era bonito ser assim. era bom. era muito mais fácil. é algo que me impressiona e surpreende cada vez com a mesma força e intensidade. porque sou perfeitamente incapaz disso. porque até sou exatamente o oposto. e não me parece que isto seja mudável. paciência.

fora da caixa ;)
sou emocional. invisto muito tempo e energia nas tarefas e nas pessoas e quando as coisas não correm como deveriam, zango-me. ou fico com raiva. não consigo não levar as coisas a peito. mando tudo e todos foder em três segundos, sem transtornos interiores particulares. só vêm depois, quando já sei que reagi de maneira um bocado desmesurada. ou que devia ter refletido cinco segundos mais. ou não ter agido de todo para avaliar melhor a situação. não é que faça coisas das quais me arrependo; aprendi a não dizer nada, a não me mexer, a não agir, a calmar a cabeça quando sinto que podia dizer ou fazer coisas cegada pelas emoções. mas consigo sem problema ter reacções que qualquer pessoa sensata acharia excessivas, e que eu tenho tranquila e decididamente, mesmo quando se trata de quebrar pontes. não se me pode acenar com uma capa vermelha e pensar que não vou reagir. mas felizmente, com o passar do tempo, aprendi a não responder a cada provocação.

não acredito no facto de as pessoas conseguirem mudar. ou se ocorrer, não mudam mais do que 10%. porque o domínio de si mesmo custa muito. e ainda mais um domínio contra a própria natureza. não dizer o que penso, não fazer evacuar as minhas emoções, não mostrar quando estou zangada ou chateada, ficar indiferente, estóica perante as circunstâncias da vida e os tratamentos de merda custa-me baldes de energia. consome-me lentamente, milímetro por milímetro. faz-me sobreviver em vez de viver. desassossega-me completamente. força-me a obcecar com o que aconteceu. torna-me presidiária de mim mesma, incapaz de avançar, de prosseguir, de criar.

sou feita completamente de outra coisa. gosto de provocar. de desafiar. de ir a contracorrente. de desrespeitar regras - por princípio e quando as acho limitadoras; sim, quase sempre. de chocar. de não corresponder às expetativas. de só fazer o que bom me parece. de questionar tudo. de criar as minhas próprias definições. de escolher sozinha. de malear a vida como quero. de tomar posse das circunstâncias. de me investir completamente. de querer que as coisas sejam, tanto quanto possível, brancas ou pretas, nunca cinzentas. de viver de maneira intensa e unívoca.

tenho humildade suficiente para admitir quando errei e pedir desculpas. e suficientemente energia e motivação para reconstruir pontes. os cépticos diriam que há coisas que não se reconstroem. discordo. tanto quanto se tenha vontade e se esteja pronto para fazer sacrifícios, tudo é possível. pelo menos para mim. então o politicamente correto pode ir-se foder. vou conseguir desenrascar-me sem ele.

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