quarta-feira, 10 de junho de 2015

siamo anche ciò che abbiamo perso

se eu fizer uma terceira tatuagem, eis o que vai ser. convém dizer que para que houvesse uma terceira, ainda precisava haver uma segunda. mas por enquanto ainda não decidi. ter uma tatuagem só é domesticar a pele e apropriar-se do corpo. é, no meu caso, ter escolhido uma mensagem e um valor indispensáveis para se desenrascar na vida. e que simbolizam uma escolha que eu tomei há anos. um eu que se acabou e que mudou. acrescentar outras tatuagens podia embaçar tudo. era passar por uma aficionada, mais do que outra coisa. não me interessa. menos é mais.

na sexta passada, ao ouvir os discursos da formatura, bonitos e inspiradores, não conseguia enxotar da cabeça a ideia que era tudo uma treta. a vida é feita de outra coisa. não percebo porque é que se mente aos jovens. dá-se lhes a ilusão que o mundo está aos nossos pés. mas somos nós que estamos aos pés do mundo. e para inverter essa ordem, mesmo que seja durante um segundo, custa montes de energia, sacrifícios, lágrimas, concessões, perdas, perseverança, força, humildade, abnegação. o processo não tem nada de esplendoroso nem grandioso. as batalhas a perder antes de ganhar uma guerra são infinitas. não estou a dizer que não se consegue triunfar, mas só que é muito mais complicado do que se pensa no início. não é para todos. muitos desistem porque dá menos trabalho. o preço a pagar é enorme. a vida nem é melhor nem pior do que os nossos sonhos. é simplesmente completamente diferente.

acho que o que perdemos nos define na mesma maneira que o que temos. ou até nos define mais. é o que nos faz. e que nunca deixa de ser. porque há sempre uma altura em que é preciso estabelecer o que estamos dispostos a perder. quais são os nossos limites. o que é tolerável e o que não. são marcas distintas na nossa mente que nos tornam nas pessoas que somos. lições que nunca se esquecem. memórias carimbadas no coração. conselhos sem os quais já tínhamos perecido um milhão de vezes. olhares confortadores, sem nem que seja uma pitada de julgamento.

o que perdemos existia, existe e vai existir. no amor e no que é mais importante. no que é invisível para os olhos, mas que dura. no sol que se levanta cada manhã e nas estrelas que caminham no firmamento. no cheiro da chuva e no sussurro salgado do vento. nos sorrisos, nas esperanças e nas saudades. sempre nos nossos corações.

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