domingo, 14 de junho de 2015

escondidas

há um proverbio francês que diz 'quem procura, encontra'. a tenacidade, a perseverança, esses atributos tão desejáveis, fazem toda a diferença na sociedade. os adultos importantes nas nossas vidas fizeram-nos tragar na infância colheres cheias desses conceitos, a fazer figas para que pelo menos uma migalha fosse incutida e permanecesse no sistema. para estarmos prontos a enfrentar a vida. para conseguirmos obter o que nos é devido. para não sermos pisados pelos outros. a ideia? nobre. a execução? uma dedicação e uma paciência mais do que extensas. o resultado? uma bagagem insubstituível. a melhor coisa que podemos fazer com ela? mandá-la foder.

acho que as melhores coisas na vida se encontram quando não são procuradas. procurar significa predefinir, escolher parâmetros, determinar preferências. é sair da casa com uma lista toda feita, com uma ideia na mente, com expetativas preconcebidas. é já se limitar sem ter começado. é confiar cegamente numa coisa que na realidade podia revelar-se insignificante. fica-se tão obcecado com a procura dum ideal inexistente que não se consegue ver mais nada. é nunca encontrar o que se procura ou o que se acha procurar.

isto aconteceu há muitos anos. eu sentada no chão do meu quarto, um vibrador na mão, um artigo americano à minha frente, à procura do meu ponto g (para tirar alguma pressão e recalibrar as expetativas do leitor - não vou dizer se no fim o consegui encontrar ou não. I don't kiss and tell.). o artigo fala comigo em polegadas, então já é um pesadelo para converter em centímetros e conceptualizar tudo. depois duma ginástica mental intensa, numa era sem computadores nem internet, consigo acertar as medidas, descobrir o ângulo e sinto-me pronta para a acção. o problema é que, uma vez o vibrador na posição, controlar a profundidade e a inclinação conforme às especificações revela-se uma proeza. não me lembro depois de quanto tempo abandonei, mas lembro-me que pensei que não fazia sentido nenhum. toda a minha concentração ficava presa na geometria espacial dum pedaço de borracha e plástico a pilhas. podia ter encontrado o meu ponto g uma dúzia de vezes, sem fazer caso disso.  

foi mais ou menos nessa altura que decidi que já não ia seguir nada que não viesse de mim, que sejam conselhos para a vida, receitas de cozinha, ou um qualquer outro tipo de sugestões. ouço atentamente (porque se deve conhecer bem as regras do jogo), tiro de lá uma ou duas ideias que sejam suscetíveis de me interessar e depois interpreto-as à minha maneira (o que estranha e frequentemente coincide com a quebra das regras). 

faço e digo as coisas como as sinto, mas sem expectativas determinadas. e nunca procuro. não. é uma mentira. procuro o tempo todo. mas sem procurar realmente. gosto da busca, da caça, desta sensação de saudade insaciável, desta fome constante. e não me importa o que fica no final do caminho. não o quero saber. 

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