quarta-feira, 3 de agosto de 2016

poção mágica?

gosto de estratégias de fuga. na linguística. e só durante exames. não sou uma dessas pessoas que estão com medo de falar uma língua estrangeira por poder não dizer coisas certas. ou corretas. nunca percebi a preocupação com os erros. nem a procura da perfeição. a perfeição é extremamente chata. faz parecer todos uns como outros. apaga individualidade. tira beleza. adoro dar erros. quando corrigidos, fazem melhorar o meu nível. nunca seria possível sem isso. é preciso errar primeiro para encontrar o caminho certo. para saber qual é. mas durante os exames de língua, consigo dominar-me com uma precisão e meticulosidade quase robótica. faço conversões na cabeça. calculo equivalências. procuro o caminho mais seguro. elimino inovações potenciais. avalio demais. penso demais. a minha cabeça ferve. na vida de todos os dias arrisco, experimento, descubro; nos exames executo, faço o que é preciso para atingir o resultado, sou pragmática.

coragem
mas, fora dos exames, fugir não faz parte do meu repertório. nunca me interessou. foi mais ou menos aos dez anos que li uma frase de emerson que achei brilhante. faça sempre o que tem medo de fazer. desde então apliquei. lembro-me de muitas situações, na adolescência, as mãos suadas, o coração quase a explodir no peito, as pernas a tremer, e eu a pedir desculpas, fazer declarações de amor, insultar pessoas que o mereciam, reivindicar o que me era devido. nunca a hesitar o que deveria fazer. acho que sempre sabemos o que é preciso. é só que a maioria das pessoas preferem fingir que não sabem. para estarem automaticamente desculpadas pela sua inércia. torna tudo menos problemático. nem é preciso decidir, nem fazer. o assunto não existe.  mas eu, quando temo algo, é o primeiro impulso para fazer esse algo. um passo definitivo. já não é possível voltar. já não tenho escolha.

na altura em que sei o que deve ser feito, qual é a escolha certa, não posso não fazer. não consigo não fazer. não me aguentaria a não agir por conforto próprio, por medo de dificuldades, por presumíveis perdas de simpatias ou de privilégios. acho que a coisa mais preciosa que tenho é esta sensação, a fitar os meus olhos de manhã a escovar os dentes, de saber que não tenho traído nenhum dos meus sonhos da infância, que fui sempre fiel a mim própria. é algo que não tem preço. e basta muito pouco para o perder, então devo ser extremamente cuidadosa. porque fazer coisas que se desdenhava é cair tão baixo que se acaba por desdenhar-se a si próprio. e é um caminho que não quero seguir. 

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