sexta-feira, 23 de março de 2018

something borrowed

un samuraï ne doit jamais, aussi longtemps qu-il vit, se permettre de s'éloigner de ceux auxquels il est redevable spirituellement. hagakure

coisas infinitesimais que fazem
diferenças enormes
casar nunca tem tem feito parte da minha lista de prioridades. não acredito na história de metades de laranja que flutuam perdidas no éter (hoje em dia era provavelmente mais exato dizer na internet...) antes de se encontrarem e afinarem os níveis respetivos de yin e yang. acho que é mais uma questão de querer, numa altura dada, as mesmas coisas da vida. de estar ao mesmo nível de desenvolvimento, que seja emocional ou intelectual. acho também que, às vezes, as pessoas aparecem nas nossas vidas só para desaparecerem um dia. temo-las durante um tempo limitado. e a única coisa que podemos fazer é aproveitá-lo. claro que há algo engraçado na ideia de passar toda uma vida com a mesma pessoa. de evoluir juntos. de compartilhar tanto. de se conhecer tão bem. mas poucos são os que o conseguem sem se tornarem reciprocamente e profundamente infelizes. não existe amor que o quotidiano ou a vida não consigam matar...

para continuar a série de coisas nas quais não acredito, não creio em amuletos. nem em todos os objetos que nos deveriam trazer sorte. porque penso que temos o nosso destino e a sorte que o acompanha nas nossas mãos. e seria uma loucura transferir o poder que temos para uma coisa que nos tornaria passivos. claro que tudo não depende de nós. mas podemos escolher como reagir em função do que temos. contudo, acho engraçada a ideia de usar no dia de casamento alguma coisa que pertence a um amigo íntimo. um símbolo do facto que haja pessoas com quem podemos sempre contar. e de valores que nunca devemos esquecer. o leszek incutiu em mim que se devia cuidar das amizades. uma das minhas melhores amigas foi viver para o estrangeiro com a família quando eu tinha 15 anos. nesses tempos (foi um pouco mais tarde do que as pirâmides, mas não muito mais tarde...) nem havia telemóveis nem internet nem voos low-cost e os telefonemas para o estrangeiro eram bastante caros. lembro-me ter mencionado este facto ao leszek e ele perguntou-me como eu contava manter as minhas amizades sem investir nelas e sem fazer esforços vários. foi uma dessas conversas que se fez há muitos anos mas da qual me lembro como se fosse ontem... tornou-se uma das minhas mantras. um pilar de quem sou. 

desde esse momento comecei a atender o telefone no meio da noite quando eram urgências. a ouvir as mesmas histórias uma infinidade de vezes sem me queixar. a comprar montes de prendas. a mandar inumeráveis cartões. a não julgar. a gastar fortunas em telefonemas e passagens. a acompanhar. a escutar choros e silêncios. a ajudar com coisas. a ficar fora da minha zona de conforto. a compartilhar medos. a aprender. a rir das absurdidades da vida. a encorajar. a lembrar-me dos momentos importantes. a deleitar-me com a vida. a descobrir que eu tinha casas em lugares em que nem precisava morar.

e tudo isso nunca o ressenti como se fosse um sacrifício. mais como uma ordem natural das coisas. uma sorte de dívida invisível para se pagar. para agradecer por tudo o que recebi dos outros. lembro-me perfeitamente de todas estas pessoas que me acompanharam e que me acompanham nas etapas importantes da minha vida. das que me ajudaram a tornar-me na pessoa que sou. que me dedicaram tempo e paciência. que me ouviram chorar, insultar ou calar. que sempre estiveram cá quando mais precisava de apoio. que nunca puxaram para eu fazer quando não estava pronta. que me ajudaram a encontrar um caminho que correspondia ao meu temperamento. à minha visão da vida. ao meu nível de desenvolvimento emocional do momento. mesmo quando as minhas escolhas lhes pareciam incompreensíveis.

fico-lhes grata. eternamente. por tudo.

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