quinta-feira, 27 de agosto de 2015

nem todas as praias são minhas

porque é que quando estou a pagar na bomba de gasolina propõem-me sempre
mesmo os cenários perfeitos têm imperfeições
um café? e quando o recuso - um sumo de laranja? e depois um cachorro-quente. seguidos de pontos que deveria querer juntar e do recibo. e como respondo não a tudo, perguntam-me depois porque é que sou tão negativa. ou se acontece que eu diga sim a algo. e quem é que me faz essas perguntas de merda?

porque nos hotéis há sempre um doce de morango pelo pequeno almoço? e mais sumo? sem falar de café. e depois, quando estou a visitar a cidade e a parar para beber algo, bombardeiam-me com mais café. e mais sumo. e bolos de queijo fresco.

detesto café. bebi dois na vida (e tinham mais leite do que café), à beira dos 18 anos e vomitei depois de ambos. já o cheiro sozinho me dá nojo. nem aguento os bolos com café (a não que seja um tiramisu com uma dose mínima) e sou uma grande fã de doces.

quanto aos sumos, as únicas bebidas doces de que gosto são a coca-cola (a versão normal que contem as doze colheres de açúcar e não a light ou a zero para pessoas que não se assumem e que estão com medo de viver, armando-se em carapaus de corrida) e o estathé al limone. tudo o resto é artificialmente e elasticamente pegajoso. não consigo beber nenhuma bebida alcoólica que contenha sumo ou refrigerantes (as de cores fantasistas, em copos chiques, com chapéus-de-sol de papel e outros acessórios ridículos) já cheiram mal. nem bebo nem como nem compro coisas que cheiram mal.

infelizmente, a fruta também é doce. das coisas doces, só gosto de chocolate. da fruta, só realmente de bananas e framboesas. o resto podia não existir. e, honestamente, o fenómeno do morango, não percebo. essa suposta sofisticação e subtilidade - combina com champanhe e coberturas de chocolate; é usado durante os preliminares em muitos filmes de soft porn (a condição que se possa juntar as palavras pornografia e sofisticação na mesma frase e a falar da mesma coisa) -  nem me aquece nem arrefece.

como me forçaram a comer queijo fresco (supostamente muito saudável mas sempre achei esse  enfoque entusiasta muito exagerado) durante a minha infância, odeio absolutamente tudo que o contenha. nem apreço muito a sua textura de cartão que passou tempo a mais debaixo da chuva nem o seu sabor insípido. evito tudo o que o contém.

(ao escrever isto, propuseram-me um bolo de queijo com morango. não preciso explicar o meu espanto.)

não percebo porque é que o quotidiano segue nos seus arranjos essa ditadura do comum. porque é que ninguém me propõe chá branco? ou chocolate? ou até uma coca-cola normal? quando a peço perguntam sempre se a quero light ou zero. sinto-me rotulada sem eu ter dito nem que seja uma palavra. empurrada para seguir padrões que nem me correspondem nem apetecem.

ao insinuar às pessoas o que deveriam querer, do que deveriam gostar ou que expetativas deveriam preencher, pode-se estragar muitas coisas. coisas bonitas.

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