sexta-feira, 25 de setembro de 2015

o que não se apaga

diz-se que as primeiras vezes sempre doem. ou pelo menos que são as que doem mais. sobre tudo quando se perde alguém. não tenho a certeza que sejam só as primeiras vezes. as coisas estão frescas demais para eu conseguir julgar objetivamente. sei que o passar do tempo faz relativizar. que apaga muito. que torna triviais assuntos que outrora eram importantes. mas não sei se tem o poder de apagar tudo. acho que há feridas que doem sempre, mas a dor evolui. torna-se diferente. deixa de paralisar. deixa respirar. deixa pensar em outras coisas. continuar o caminho.  só se faz ressentir de vez em quando. lateja quando menos se espera, provocada por pormenores. ou quando se fica à sua espera.

uma realidade demasiado real
cada vez que topo com estupidez, com indelicadeza, com hipocrisia, com doblez, sinto saudades da hanna. ou quando passo em frente do nosso restaurante tailandês preferido. ou da hamburgueria favorita dela. ou quando me sinto julgada. ou quando vejo sabrinas ou vestidos com laços, mesmo que normalmente eu ache os laços débeis, feios e demais e que não usasse sabrinas mesmo que me pagassem uma fortuna, porque um sapato sem salto alto que não seja um chinelo nem uma sapatilha de ginástica não merece existir. mas agora passo tempo a olhar para essas coisas de que não gosto. com emoção. 

é um buraco no peito. uma ausência de matéria. algo que cá deveria estar, mas desapareceu. palavras a flutuar na cabeça, a envolver tudo mas nunca ficar. uma comoção interior ao saber que nenhum amanhã existe. um desamparo desolador. coisas que nunca foram vividas. sentidas. tocadas. uma saudade inapagável. 

a dor nunca se vocifera para não fazer escapar as lembranças. enrola-se. domestica-se. alimenta-se. para um dia deixar lugar ao sorriso, mesmo que seja só durante um instante. uma infinitesimalidade. uma migalha. um sorriso ao pensar em tudo que foi tão bom. tão inesquecível. tão esquisito. e que dá lugar à dor outra vez. mas também à força. força que vem de facto de ter vivido algo de muito especial que nos transformou para sempre.

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