há alguma disparidade entre a minha bagagem genética e geográfica. algo que correu ligeiramente errado. ou pelo menos não exatamente bem pensado. mas sempre achei o valor da genética sobrevalorizado. nunca percebi essa pressão social para ter filhos biológicos. não há um número suficientemente alto de crianças sem família? se quer bem a todas as crianças do mundo ou só às suas? quanto à geografia, os transportes contemporâneos permitem fazer milagres, então decidi não me preocupar com ela. só me sinto levemente deslocada. paciência. gosto de temperaturas acima dos 30 graus. fazem-me levantar eufórica de manhã e com tanta energia que até conseguia levantar montanhas. eu sei que a maioria das pessoas entorpecem com o calor, mas não é o meu caso. é mesmo tudo ao contrário. é como roupa vermelha - a usá-la, sou capaz de tudo.
no sul, de que gosto tanto, as manhãs são devagar. o sol leva timidamente a sua cabeça debaixo das camadas de sal e areia em que dorme. até com vergonha por ter brilhado com tanta intensidade no dia anterior. em pequeno, disseram-lhe que não era bom procurar muita atenção. mas o que ele pode fazer enquanto só está a tentar fazer o seu trabalho o melhor que consegue? leva tempo para dissipar as nuvens, a gozar da sua mandriice, a se deleitar com ela. os pensamentos já estão a vadiar, avançar taciturnamente até a noite, mergulhar nos copos de sangria de vinho branco com morango - gosta muito de morangos, da cor deles que complementa a sua - que se vai beber com amigos para descansar e trocar impressões sobre o dia. que coisa celsa! como se está a sentir subitamente leve! sacode a cabeça, suspira a pensar em todas as tarefas que ainda deve cumprir antes, engole as últimas migalhas do pastel de nata que caíram no seu colo - não gosta de gastar comida - acaba de um gole só o resto do leite, espreguiça-se, respira fundo até sentir a maresia penetrar nos recantos mais longínquos dos pulmões, já se sente mais pronto para enfrentar o dia. tira o telemóvel do bolso traseiro - é a hora de chamar o vento, que pelos vistos esqueceu-se mais uma vez de colocar o seu alarme. ah esse vento e a sua desatenção aos detalhes...
um sul do que gosto imenso é portugal. para citar tabucchi, que me arrependo muito de não ter conhecido porque compartilhámos uma paixão que poucos compreendem, portugal faz parte da minha bagagem genética. não tenho nenhuma ideia de onde vem esta afinidade e porque é que não se manifestou mais cedo, mas cá está. se calhar porque é uma dessas coisas para as quais precisamos crescer. ou porque, por ter crescido entre duas culturas, acabei por não me identificar com nenhuma. mas cá estar tem em si algo de quase mágico. a gentileza, a disponibilidade, o carinho e a dignidade das pessoas. as descobertas gastronómicas duma grande subtileza, devido às ótimas recomendações dos empregados de mesa. um cuidado e um devagar meticulosos ao cumprir as tarefas. os pequenos-almoços tomados na pastelaria da esquina da rua onde todos se cumprimentam e conhecem. o mar que cega com a sua azulez soberba. o vento que leva um sabor libertador do mar, que dá a impressão de se ficar mais jovem, e faz explodir o coração com todas as promessas que faz. o tempo que para nas vilas e nas aldeias e até parece se soltar no ar. o sal na pele, uma camada fina e quase invisível mas que envolve tudo. o preto da roupa das senhoras mais velhas, a esconder nas suas complicações notas de fado, vestígios de canela e partículas de saudades que ficaram lá atrapalhadas ao flutuarem no ar. uma água bem fresquinha bebida debaixo dum chapéu de sol. a luz, que expõe tudo sem compaixão nenhuma, fraquezas e beleza, sem diferenciar. a chamada muda de horizonte a prometer um amanhã melhor. como é que se pode não gostar disto?
ainda não atingi um ponto de saturação com o arroz de tamboril e a sericaia (orgasmicamente boa, a sericaia - não percebo o espanto das pessoas quando uso estas palavras, que supostamente não encaixam no politicamente correto. todos gostam de ter orgasmos, certo? então achar a minha comparação escandalosa é hipocrisia pura). nem sei se será possível. então se calhar ainda não é a altura de voltar. vou cá ficar. indefinidamente :)
| nada de tal como um chazinho e uns bons bolos para melhorar a conversa |
ainda não atingi um ponto de saturação com o arroz de tamboril e a sericaia (orgasmicamente boa, a sericaia - não percebo o espanto das pessoas quando uso estas palavras, que supostamente não encaixam no politicamente correto. todos gostam de ter orgasmos, certo? então achar a minha comparação escandalosa é hipocrisia pura). nem sei se será possível. então se calhar ainda não é a altura de voltar. vou cá ficar. indefinidamente :)
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