gosto da ásia. imenso. foi um amor quase à primeira vista (não acredito em amores à primeira vista, mas não importa). esta aventura começou há mais ou menos
quinze anos, antes da monika se ter para cá mudado. o krzysiek e eu tínhamos
seis semanas de férias, ambos entre dois empregos. queríamos visitar a
espanha e portugal, mas um só bilhete de comboio ilimitado para a
península ibérica já custava os olhos da cara, sem falar do resto, então
decidimos procurar outra coisa. a mãe duma amiga da monika, que tinha um
agência de viagens, e já lá tinha mandado a monika com amigas, falou-nos em tailândia. porque não? uma amiga, também a trabalhar numa agência de viagens encontrou uma oferta muito vantajosa para passar duas semanas na tunísia num hotel de quatro estrelas. o problema é que a mim, não me interessa de todo passar as férias a repousar o rabo numa espreguiçadeira a contemplar de longe uma piscina (nas piscinas não entro. mesmo michael phelps admitiu lá fazer xixi.). é cruelmente chato. felizmente, o krzysiek estava a sonhar com grandes aventuras. optámos pela tailândia.
| angkor wat às 5.40 de manhã |
desde o primeiro dia adorei. a energia vibrante e interminável. as cores intensas (porque é que os europeus devem ser tão cinzentos, sobretudo no inverno? já há razões suficientes para se ficar deprimido sem isso.). os sabores acres e distintos. a comida excelente e tão picante que faz explodir o paladar. o ar pegajoso que embrulha a pele. a humidade louca que invade tudo, incansável. as túnicas dos monges budistas que piscam de açafrão no meio da multidão na rua. o desassossego constante nas ruas e nas estradas. nenhuma regra de trânsito parece ser respeitada, mas não significa que não há regras. a zoeira incessante das pessoas, dos tuk-tuks, dos bichos. os serviços e comércios abertos 24 horas. a sensação de estupidez quando se entra num mercado em que não se conhece metade das frutas e legumes. as três perguntas clássicas quando se conhece uma pessoa - idade, estado civil, existência de progenitura. os chinelos que, na maioria dos países (mas não no cambodja, porque lá me explicaram que parecia mais desarrumo do que outra coisa), ficam em frente da loja, casa ou banheiro. a cortesia, gentileza, prestabilidade, meiguice e flexibilidade das pessoas. na asia, tudo pode sempre ser arranjado. não há situações irresolúveis. seja reparar o pneu do autocarro sozinho no meio da noite e quase sem luzes, pedir algo que não faça parte da ementa dum restaurante, ou negociar o preço final das compras (e ambos os lados ficam contentes, porque a fineza dos bons negociadores é sempre valorizada e admirada). tudo isto na europa não existe. e nos estados unidos é feito só parcialmente e com pouca sutilidade.
fico cada vez mais humilde perante a dignidade das pessoas a cumprirem as tarefas mais simples e rudimentares. o sério com o qual as desempenham. a atenção, o cuidado, e a dedicação que investem nelas. o apreço e a modéstia que mostram. deixa-me com nós na garganta. que se possa valorizar tanto coisas que noutras alturas geográficas se tornaram há muito tempo evidentes e adquiridas. que se faça tanto esforço porque é o que é exigido e sem grandes esperanças. não se tem o luxo de escolher. de recusar. de ter chiliques. aceita-se o que a vida traz. com um sorriso na boca e sem se queixar. independentemente das dificuldades, privações e injustiças. o muito que se consegue fazer do pouco que se tem. a criatividade. o valor que se dá às coisas em que o ocidente nem pensa. e cá, destacam-se. surpreendem. comovem. fazem parar. oferecem outras perspetivas. abrem os olhos. uma pureza despida de hipocrisia, de cobiça, de egoísmo.
a procurar na internet uma pensão em bagan, vi algo que me fez sorrir. electricidade durante 24h. faz relativizar tudo, não faz? deixa perceber como, na maior parte do tempo, preocupamo-nos com coisas que não importam. e tomamos por garantido o nosso quotidiano porque não temos de lutar por ele. está servido num prato. podemos ficar contentes. amuar. ignorá-lo. tentar mudá-lo. temos uma infinidade de escolhas que ocupam todo o nosso tempo e energia. não aproveitamos as situações. não as valorizamos. esquecemo-nos do pouco que é realmente importante. não temos humildade porque achamos que as oportunidades vão nos ser oferecidas indefinidamente. e se não houver amanhã?
a procurar na internet uma pensão em bagan, vi algo que me fez sorrir. electricidade durante 24h. faz relativizar tudo, não faz? deixa perceber como, na maior parte do tempo, preocupamo-nos com coisas que não importam. e tomamos por garantido o nosso quotidiano porque não temos de lutar por ele. está servido num prato. podemos ficar contentes. amuar. ignorá-lo. tentar mudá-lo. temos uma infinidade de escolhas que ocupam todo o nosso tempo e energia. não aproveitamos as situações. não as valorizamos. esquecemo-nos do pouco que é realmente importante. não temos humildade porque achamos que as oportunidades vão nos ser oferecidas indefinidamente. e se não houver amanhã?
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