quarta-feira, 7 de outubro de 2015

desatenção

as pessoas já não sabem escutar. não conseguem. não querem. não lhes interessa. ficam perplexas quando não se lhes pede participação nenhuma. só silêncio. e atenção. uma armadilha. a inércia já não parece o estado mais natural do corpo. as mãos, quando não estão a segurar num tablete/telemóvel ou a acariciar o teclado do computador, tudo isso feito com uma veemência compulsiva, ficam perdidas no espaço. sentem-se completamente burras. querem fazer algo. participar. ocupar-se. custa-lhes muito ficarem quietas. chegar a um estado em que não se devem focar em nada. e o silêncio faz focar em muita coisa.

o nosso eu, quando não está ocupado com si mesmo, quando não está a arfar-se com a sua própria soberba, quando não se afoga no seu esplendor, quando deve parar durante alguns segundos ou minutos o processo fastidioso e cativante que é a compartilha das micas do nosso deslumbramento através de redes sociais (o que comemos, fizemos, onde fomos, com quem e porquê; difícil imaginar nem que seja uma pessoa que não quisesse conhecer esses pormenores; como se possa não estar interessado em nós, somos o centro do universo, não somos? tudo gravita porque lhe damos a força necessária. sem nós, nada existia.) com a humanidade inteira, também fica perdido. porque o silêncio a faz parar. questiona-a. duvida dela. exige um estado de conforto que se consegue atingir consigo mesmo para depois poder dar toda a atenção a outra pessoa. parece uma das coisas mais perigosas do mundo. um risco que não se pode correr. podia custar demais.

é bastante desolador que nesta altura em que a comunicação parece abundar em todos os lados, seja o que é mais difícil para se encontrar. debaixo de superficialidades egocêntricas não sobra mais nada. estamos bombardeados por mensagens, conversas, telefonemas. o mundo parece querer compartilhar tudo connosco. uma ilusão. nunca tínhamos sido tão sós. as duas coisas que parecem mais naturais e óbvias na comunicação, o tempo e a atenção, tornaram-se as duas coisas mais dificilmente encontráveis. até ficamos gratos quando as presenciamos. uma tristeza inefável.

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