segunda-feira, 14 de março de 2016

(des)complicações

para o roy.

tutti ti valutano per quello che appari. pochi comprendono quel che tu sei. niccolò machiavelli

quando é que a vida se complicou tanto? numa altura havia o preto e o branco, o
situações claras
bem e o mal, o certo e o errado, e, entre os dois, uma fronteira. desenhada dum traço espesso e firme. inapagável. indelével. irrasurável. a dividir. a delimitar. a definir. a conter mundos. a manter equilíbrios. a dar conforto. a responder a perguntas. a proteger. a simplificar. a unir.

mas um dia, sem que pudéssemos definir quando exatamente é que foi, essa fronteira desmaterializou-se. desmaiou. desvaneceu. desapareceu. já não havia diferença nenhuma entre as tintas que guiavam o nosso caminho. o bem conjugava-se em perdas e desastres. o mal safava-se tranquilamente. nada parecia seguro. nada estava certo. não se conseguia prever as consequências. nem adivinhar as reações. o território tornou-se inimigo. já não se devia tomar nada nem ninguém por garantido.

foi a vida que mudou? fomos nós que mudámos? foram os nossos fracassos que pintaram tudo de cinzento? o gosto residual na boca que se tornou mais acerbo?ou foi só a nossa cegueira que se dissipou? é sempre difícil avaliar a realidade já fora do casulo protetor. quando é preciso readaptar-se. repensar tudo. reagrupar os pedaços. reencontrar sentidos. habituar-se ao facto que as coisas vão sempre continuar assim - sem sol nem sombra, sem evidências nem certezas, entre miragens e fantasmas.

e o único conforto são as migalhas de felicidade e de beleza que nos fazem esquecer, durante um instante, a complexidade e a confusão do mundo.

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