| proporções deliciosas |
gosto quando um homem sabe como flertar. mas nunca diz uma palavra a mais. para sempre na altura certa. é um dom muito raro. o saber quando calar. e quando nunca cai no óbvio. é o pior que se pode fazer. uma vez estava à espera dum amigo num café, já sentada, a falar por telefone com pessoas diferentes e em línguas diferentes. numa altura, um gajo, que já me tinha tentado falar enquanto eu estava na fila para pedir um chá, mas o qual ignorei, vem à minha mesa, a perguntar-me em inglês, quantos idiomas é que eu falo. respondo que não respondo a perguntas pessoais feitas por desconhecidos (na verdade é uma pergunta que detesto e minto quase sempre. o que tenho na cabeça e o trabalho que invisto para ter o que tenho na cabeça só me diz respeito a mim). o gajo indigna-se a dizer que me tinha perguntado quantas línguas eu falava e não de que cor era a roupa interior que eu estava a usar. pela primeira vez olho para ele com algum interesse a dizer que era uma pena incrível, porque à pergunta sobre a cor de roupa interior, havia pelo menos uma hipótese de eu responder se me apetecesse. mas essa sobre as línguas - não havia hipótese nenhuma. e acabei a conversa.
uma da razões pelas quais gosto tanto de falar com homens é porque têm (ou pelo menos alguns deles, os que são realmente interessantes) essa capacidade a simplificar. ideias. conceitos. problemas. definições. dilemas. soluções. acho que é exatamente a mesma coisa que faz enraivecer 95% das mulheres, mas não nos vamos preocupar com isso. quero que as coisas sejam pretas. ou brancas. não me interessam os 254 tons de cinzento. os 254 tons de cinzento tornam a vida desnecessariamente complexa. tornam-na difícil. e as pessoas presidiárias de demasiados princípios, demasiadas nuanças, demasiados padrões, demasiadas exigências. não quero redefinir sentidos das palavras quotidianas. o peso dos hoje, dos já, dos sim, dos não. deixo-os tomar a forma que querem. simplificações esclarecem as dissonâncias do dia-a-dia. às vezes, não as consigo ver sozinha. lembro-me dessa conversa que tive com a dominika. o conselho dela foi bastante claro: compartimentaliza, fecha as gavetas com pensamentos dos quais não estás a precisar e prossegue. pensa como se fosses homem. ponderei isso durante alguns segundos, achei a ideia genial e respondi. adorava. é só que isso não é tão fácil como soa. a minha cabeça recusa-se a cooperar comigo. deixar tudo para não se perder em pormenores requer concentração. e disciplina. e mesmo ao eu não ter capacidade nenhuma para fazer duas coisas ao mesmo tempo, não significa que não me perca nos meus pensamentos. mas basta falar com um homem cuja opinião respeito e tudo entra nos eixos. sempre. como por milagre.
lembro-me duma cena que vi quando estava de férias. espreguiçadeiras perto da piscina. um homem a falar por telefone. ou mais exatamente dois telefones. do lado esquerdo uma conversa em alemão, do direito em italiano. no colo dele um portátil em que estava a ver emails. tudo isso depois de ele ter pedido desculpas por precisar solucionar uma situação urgente no trabalho e a continuar ao mesmo tempo a entreter as pessoas, que estavam com ele, com uma conversa ligeira e brilhante em francês. a usar óculos de sol cor-de-rosa. isso foi há mais de dez anos, mas mesmo assim perguntei-me na altura se não o devia pedir imediatamente em casamento. quantos homens destes há neste planeta?
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