sábado, 27 de agosto de 2016

dubito, ergo cogito, ergo sum

um produto de invenção francesa com afinidades
para portugal, mais ou menos como eu, com
a diferença que tenho as minhas também
fora do campeonato europeu de bola 
tenho sempre ficado impressionada com pessoas que conseguiam definir-se sem problemas. com substantivos. definir-se com adjetivos é muito mais fácil. adjetivos só pressupõem um conhecimento de si próprio. podem mudar com o tempo, em função da pessoa em que nos tornamos. adaptam-se aos contextos. às circunstâncias. intensificam ou decrescem. são flexíveis. substantivos, quanto  a eles, descrevem a identidade. uma pertença. uma origem. são mais rígidos. mais pretos ou brancos. mais situadores no tempo. e espaço. mais indicadores de gavetas em que as pessoas nos colocam. mais pré-definidos. mais tudo ou nada. englobam muitas caraterísticas e mesmo sem corresponder a todas, cabe-se num molde. são mais definitivos. é difícil mudar quem se é.

por ter crescido entre duas culturas, essa carência identitária incomodou-me muito durante anos. nunca me senti pertencer a lugar nenhum. sonhava com poder identificar-me com um país, um grupo de pessoas. mas não só por teoria. não só pelas aparências. porque compartilhávamos um fundo comum. nunca aconteceu. e mais provavelmente nunca acontecerá. acho que já domestiquei este pensamento. as minhas dúvidas de pertença cultural não são a única razão pela qual me identifico com poucas coisas. é também culpa do meu individualismo. da minha paixão para ir a contracorrente. da importância que dou ao facto de não concordar. à vontade de seguir o que escolho, independentemente do que os outros pensam. no fundo, não quero fazer parte de nada. é só a ideia de fazer parte que me apetece, encanta e fascina. porque é tão inatingível. as coisas que nos impressionam mais nos outros são as que nunca vamos conseguir ser. e não é que não acredito na força da mente e no alcanço dos objetivos. é preciso estar consciente do que não se é. e não se esforçar a fazer coisas que não nos correspondem de todo.

sou pouca coisa. na lista de tudo o que podia ser, de tudo com que me podia identificar. mas esta pouca coisa é algo que valorizo. muito. oferece flexibilidade. liberdade. deixa não conformar. surpreende. autoriza-me a escolher o meu caminho em função das necessidades. mas mesmo assim, descobri ultimamente a força de alguns dos meus reflexos que não consigo contornar. e que não controlo. a minha cabeça foi programada pelos anos de dissertação cartesiana. pelos almoços ao meio-dia. pela convicção de que há maneiras bem definidas de comer croissants e tudo resto é só profanação. pelas canções do patrick bruel, do francis cabrel e da patricia kaas. pelos montes de palavras que me surgem na cabeça em momentos de grandes emoções e, às vezes, nem os sei dizer em nenhum outro idioma. ou não me vêm naturalmente. que eu me identifique com tudo isso ou até que ponto, já é outra história. mas cá está. uma grande parte dos meus reflexos culturais são franceses. quer eu goste, quer não. quer eu queira quer não. quer eu me reconheça quer não. paciência... mas isso, felizmente, são coisas de cabeça. e só de cabeça. o meu coração, quanto a ele, só fala português. e é o que me salva ;)

Sem comentários:

Enviar um comentário