quinta-feira, 18 de agosto de 2016

viver a vida

seguir desejos?
somos bombardeados pelos nossos sonhos. de todos os lados. férias de sonho. casa de sonho. telemóvel de sonho. corpo de sonho. trabalho de sonho. mulher/homem de sonho. carro de sonho. casamento de sonho. e pelas histórias de todas essas pessoas que já os conseguiram realizar. que deram uma volta ao mundo. que passaram tempo longe da civilização. que tiveram uma carreira de futebolista/cantor/ator com o dinheiro adequado na conta bancária. que deram uma volta de 180 graus ao dia-a-dia profissional para fazer o que sempre queriam fazer. pela felicidade suposta que isso lhes trouxe. pelos livros que escreveram sobre isso. pelos milhões de fotos que documentaram o processo e invadiram o mundo virtual. por sucessos tão fáceis. por decisões tão radicais. por irrealidades que se tornaram tangíveis. e que nos fazem projetarmos. questionar a nossa própria incapacidade. de agir. de mudar. de reinventar. de realizar os nossos sonhos. de sermos felizes.

estamos sempre à espera duma mudança para o melhor. dum ímpeto positivo. de algo que nos permita passar a outra coisa. de uma força transumana que faça uma diferença. que traga a glória. a popularidade. o dinheiro. o respeito. o amor. estamos inertes por medo de deixar passar esse momento em que tudo vai bascular. fitamos incansavelmente os nossos objetivos. não vemos nada mais. somos cegos. sem o saber. procuramos em nós essa coragem, essa obstinação. não encontramos nada. não há nada. nada em nós que nos deixe concretizar os desejos. está a ser difícil. perdemo-nos nas inumeráveis possibilidades. não sabemos que caminho escolher. ficamos frustrados. não queremos arriscar demais. não queremos perder as poucas coisas que já temos. não percebemos porque realizar os sonhos parece quase impossível. é quase impossível. é a culpa do mundo. do momento. das pessoas que nos roubam as oportunidades. do destino.

ninguém se diz que, se calhar, alcançar sonhos envolve algo completamente diferente. que não começa por intrepidez mas por uma sede de descobertas. por uma falta de expetativas. por uma curiosidade. por uma admiração. que nos fazem todas seguir o que a vida nos traz. e onde nos faz andar. é o que dá um impulso para tudo o resto. mas para o poder seguir é preciso deixar-se surpreender. desviar dos caminhos pré-escolhidos. improvisar. não ficar presidiário dos marasmos emocionais. saber abandonar os caminhos que não levam a lugar nenhum, as pessoas que não levam a lugar nenhum. é estar presente aqui e agora. aberto às possibilidades. atento aos suspiros. à luz do sol que brinca nas árvores. ao vento que sussurra segredos. é jogar com as cartas que temos na mão em vez de lamentar que não sejam as que queremos.

no final das contas, a vida é bem mais interessante que os nossos sonhos. e é quando esses últimos deixam lugar à realidade, quando a fantasia desaparece, quando se enfrenta o quotidiano tal como é, quando se vive o que se tem, quando se está pronto para a vida depois de inumeráveis desilusões a resultar de muitos sonhos que falharam, que a felicidade pode começar.

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